Encontrei um bairro inteiro às escuras, depois que saí da sua casa.

Da guarita, o porteiro me informa que os responsáveis pela falta de energia são os mesmos transformadores consertados duas semanas atrás.

Resolveram, arbitrariamente, nos colocar outra vez nesse desespero abstêmio.

O calor de um dia inteiro escapa do asfalto, feroz, como uma baforada de dragão. Envolve tudo ao redor com um vapor sorrateiro que obstrui as minhas narinas, me dificultando a respiração.

“Que droga”, reclamo em voz alta, ao lembrar da chateação que vai ser sobreviver, sabe-se lá quanto tempo, sem luz, ar e wifi.

A calmaria da rua me incomoda.

Uma distância tão curta até o outro lado da calçada e eu com medo de um ataque surpresa, olhando desconfiada para os lados, atrapalhada com bolsa, sacolas e celular nas mãos.

Qual algoz resistiria algo tão indefeso? 

Culpa daquela segunda fatia de bolo que não consegui recusar.

 Sua culpa.

Enfio a chave no portão e uma sensação deliciosa de alivio tranquiliza os meus nervos alertas; escapara, enfim, ilesa, dos perigos da noite.

Sem dúvida é uma enorme vantagem morarmos assim, pertinho, uma da outra. 

Essa vizinhança banalizou proveitosamente a nossa relação, fazendo com que a gente se procure diariamente sem pretextos muito formais: a televisão que não funciona, as plantas novas do seu jardim, um café, uma receita, um livro…

Construímos desavergonhadamente uma espécie de simbiose afetiva.

Hoje achei você mais animada do que o habitual. Forte.

Reclamou das coisas que eu não tinha conseguido fazer durante o dia, da minha lentidão para completar “a mais simples das tarefas”, do meu esquecimento, da maneira que tenho educado as minhas filhas.

Uma tarde inteira presas nos mais diversos e intermináveis assuntos.

Me impressiona a fluidez das nossas conversas, nossa incrível compatibilidade. Mesmo depois de todos esses anos. Depois das turbulências que enfrentamos juntas.

Ainda rimos uma da outra, uma com a outra. Tenho muita sorte.

Não se preocupe, suas ordens carinhosas não me incomodam, sua necessidade aflitiva de dirigir a minha vida como costumava fazer quando eu era pequena não me perturba. Prefiro esse tratamento quase infantil a te ver dependente, carente dos meus cuidados. 

Me recuso aceitar sua fragilidade.

Observar o seu envelhecimento me torna órfã do que fui até agora.

Meus segredos, minhas inseguranças, meus sonhos, meus erros, procuro tantas vezes em você as respostas para conduzir minhas decisões e navegar a minha vida, que já não sei ser capaz de assumir sozinha as minhas escolhas.

Minhas culpas, sem nenhum pudor, depositadas nos seus conselhos.

Me assusta pensar que um dia não os terei ao alcance de alguns poucos passos. Onde encontrarei seu colo quando me tornar mais sua mãe do que filha?

Ser agora a adulta, me despedir do conforto da sua proteção, desocupar esse lugar?

A vida aos poucos me prepara para a hora de soltar a sua mão. E um dia, tenho certeza, estarei pronta.

Enquanto isso, dividiremos cuidados entre conversas fiadas, filhos, flores.

Entregaremos nossos papéis ao tempo.         

Meu início na metade do seu caminho, seu final na metade do meu.

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2 comentários
  1. Texto muito emocIonante e sincero, apesar de triste.
    A brevidade da vida nos faz perceber que é importante aproveitar cada momento do lado de Pessoas Especiais com muito amor.
    BRILHANTE escriTa!

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