Às vésperas das minhas bodas de prata eu me pergunto como persistirá a minha parceria, 25 anos depois dos votos que trocamos tão inocentemente. Deles, jovens e imaturos, restou muito pouco. Não sabíamos a complexidade do trabalho que seria manter todas aquelas promessas, sintonizar as nossas expectativas e sonhos, equilibrar o imprevisível, os filhos, a individualidade de cada uma das versões que apresentamos no curso dessas duas décadas e meia. Fomos enganados pelo apelo romântico da salvação matrimonial. Seduzidos, confiantes do “felizes para sempre” como se nele já viessem decifrados o início, o meio, e o fim.  

Nadar contra a correnteza selvagem da nossa índole impermanente é um desafio fadado ao fracasso. E associar o sucesso de uma união à sua longevidade, um grande erro. A monogamia longa não representa a personificação do ideal. Nem sobrevive dependente do esforço contínuo que vez ou outra fazemos para manter vivos o espírito sedutor, o interesse, a intimidade e o desejo. Ela resiste a extinção (na minha opinião) como uma fatalidade qualquer, consequência de uma combinação de fatores facilitadores que acontecem alheios à nossa vontade de controlá-los.    Segurança, conforto, amor, cumplicidade, amizade, sexo, medo, covardia, meros sobreviventes do tempo. 

Até hoje eu fui muitas e não tenho nostalgia por nenhuma delas. A maturidade me moveu adiante como um trem bala. Mas reflito sobre o traço egoísta que ainda me faz reivindicar a exclusividade da mudança, acolhendo com certa relutância as vulnerabilidades que também borbulham dentro do meu companheiro. Porque resistimos tanto aceitar a desigualdade na transformação das partes, confiando numa ilusória simbiose gemelar que só nos afasta cada vez mais? Essa harmonia talvez seja um dos mais indispensáveis ingredientes na conquista de um enredo conjugal simples e saudável. Afrouxar de vez em quando o vínculo e dar espaço para a pausa, respeitando a instabilidade dos nossos ânimos e sentimentos, que vêm e vão como as ondas do mar. Conquistar esse equilíbrio me garantiu um pouco da paz que procuro desde a infância, me fez amar mais. Porque o futuro, esse será sempre incerto, para todos nós.   

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1 comentário
  1. Paula querida, vc não imagina como é bom poder ler algo que me reconforta neste momento do meu casamento! Quando começamos a repensar a maneira como vivemos!
    Obrigada pelas suas palavras, quando Lemos coisas que nos encaixámo-nos percebemos que não estamos sós!
    Bjs Alexandra

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