Saí e fui almoçar com uma grande amiga um dia desses. Ok, pandemia. Sem abraços apertados e sorrindo só com os olhos, mas fui. Encontros como este são respiros que enchem meus pulmões e garantem mais uma temporada em casa.

Dessas amigas que a faculdade me deu de presente, o tempo que ficamos sem nos ver não importa. Meio de semana, hora do almoço, vinho, vários assuntos começados e não acabados pra podermos acabá-los e começar outros tantos na próxima vez.

Esse evento tão feliz me fez lembrar que o ser humano é feito de relações e, parafraseando Aristóteles, “mesmo que tivéssemos todos os bens do mundo, ninguém escolheria uma existência sem amigos”.

Caminhei de volta para casa com o olhar mais aguçado. Talvez fosse o vinho, mas não: era a calmaria que me invadia e me fazia ver o mundo com mais clareza. Comecei a prestar atenção nas pessoas que eu cruzava pelo caminho, nos ônibus, nos carros preenchidos pela solidão do motorista. Sinal fechou, celulares a postos. Cada um no seu mundo virtual.

Uma coisa é fato: esse mundo virtual tão novo e tão rápido, que se acelerou ainda mais pela pandemia e pela necessidade do humano de se relacionar, aproxima pessoas, forma comunidades interessantes, facilita aprendizados, nos abre o olhar e, com certeza, promove novas e verdadeiras amizades. Mas, neste novo mundo, a real conexão exige um esforço o qual nos desacostumamos a fazer.

Acredito que, nós, aqui, somos vacinados contra o lado nocivo das relações virtuais. Mas, como nenhuma vacina é 100% eficaz, algumas vezes, e não precisam ser muitas, o dano permeia nosso mundo. Nos contamina.

Diretas e indiretas protegidas pela tela, uma coragem disfarça o ódio, carrega ressentimentos que só pioram a relação do ser humano com ele mesmo, dificultando ainda mais a possibilidade de aprofundar a relação com o outro. Acaba a empatia, acaba a escuta.

Uma rapidez de resposta, sem processamento interno, que não precisa ser dada. Relações líquidas. Seria como coar um café num filtro velho, nos primeiros goles saboroso, quentinho, mas depois o gosto amargo da borra fica parado na garganta.

Sou do tempo em que os amigos escreviam cartas, mandavam postais.
Sou do tempo do telefone fixo, do orelhão, em que ligar para um amigo era um evento, tornando-o assim mais especial.
Sou do tempo em que a solidão era preenchida por respiros iguais a este que tive nessa feliz e ensolarada tarde do meio da semana.

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6 comentários
  1. Querida Lívia,
    Belíssimo texto! De fato, questões como essa, ainda mais nesse período, estão cada vez mais passíveis de reflexão. Um dia desses a história que é possível acelerar o áudio do whatsapp (mando áudio para a minha irmã e ela faz questão de acelerar a minha voz para ficar naquele tom infantil, engraçado). Aos poucos, o ouvir torna-se mais difícil, aliás, tudo é muito apressado, (a maioria está sem tempo), isso se reflete tanto nos textos, livros, culinária, conversas virtuais, o fast de muitas coisas. Acredito que está Cada vez mais difícil ter esse tipo de experiência que você teve com a sua amiga. Não vejo a hora de sentir novamente esses respiros. Estamos todos precisando!

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