Quando eu fazia faculdade e morava em uma república, nos idos de 1981, o nosso vizinho era grande amigo do cantor Silvio Caldas, que ele hospedava frequentemente. Óbvio que ficamos amigas dele, que nos recebia com salgadinhos maravilhosos em seu apartamento, em saraus deliciosos nos quais ele tocava no meu violão (que ele fez questão de autografar).

Ao ouvi-lo cantar “A deusa da minha rua”, eu não me contive e soltei a pérola: “Nossa, minha avó adora essa música!” Ele, que estava se achando o maior jovem no meio de sete garotas, me olhou um tanto contrariado e cantou, de sua autoria “Cabelos cor de prata”. Achei linda a forma de encarar o envelhecimento, na letra dessa canção, e nunca mais a esqueci.

Naquela época eu já começava a usar Bigen e Henna, para esconder um ou outro fio branco que começava a despontar. E assim foi por 30 e poucos anos, quando já havia percorrido todo o universo da química capilar e migrado para a tintura, e cheguei ao ponto em que comecei a ter uma tiara de fios brancos emoldurando a testa, após dez dias de tingimento no salão.

Via uma ou outra mulher que havia assumido os cabelos brancos, achava lindo e morria de vontade de aderir. Em janeiro de 2016 fui à cabelereira para corte e tintura e experimentei uma peruca grisalha. Todos detestaram o efeito, não ia combinar, eu ia envelhecer demais etc, etc. Insisti: só corte bem curtinho e mais nada, vou assumir os brancos.

Em abril, a situação estava grave, as pontas tingidas estavam desbotadas, as raízes já estavam brancas ou castanhas, uma coisa que lembrava o desleixo. Quase desisti, mas respirei fundo e insisti no corte curtinho. As filhas já comentavam vez ou outra, e eu dava a letra: é assim que vai ser e ponto final. Com filhas é sempre mais fácil!

Porém, ao chegar em casa, o marido comentou: “Mas não vai ficar assim, né? Você vai voltar a pintar o cabelo, né?”

Eu me sentei, e comecei a falar baixinho: “Essa é a cor dos meus cabelos, agora. Sou grisalha, tenho 54 anos e, como você pode perceber, não tenho mais a aparência jovem que já tive. Tenho muito a oferecer, você me conhece e sabe bem, mas se você estiver em busca dessa juventude física dos 20 e poucos anos, definitivamente, não será comigo. E acredite, eu também vejo o seu envelhecimento físico e não me incomodo, não abala o meu sentimento nem o meu desejo por você, mas entendo que talvez esse não seja o seu caso.”

Ele gelou, e eu percebi que foi um soco no estômago. Num primeiro momento, senti que tinha batido forte demais, mas era o remédio amargo que tínhamos que tomar, para que olhássemos para o assunto de forma madura. Logo depois, ele me deu um abraço e disse que isso não tinha a menor importância, que o cabelo grisalho ficaria bem em mim quando a transição estivesse concluída, mas que naquela fase ainda estava estranho. E ele tinha razão. Seguimos em paz, desde então… se é que um homem pode ter paz ao lado de uma mulher dessas!

A transição se concluiu e eu simplesmente me encantei com o tom de grisalho que apareceu, com as mechas brancas predominantes na frente e mais raras atrás, ajustei o corte e passei a me ver no espelho muito mais elegante, com um cabelo clássico, que não mais parecia forçar uma realidade que eu não vivia. E foram muitos elogios, que ainda ouço de vez em quando.

Hoje, quando olho as fotos do cabelo tingido, comparadas às de hoje, não tenho dúvida, meu cabelo está mais bonito, mais saudável e extremamente adequado. Muito provavelmente eu pareça mais velha, até porque estou, e serei mais, a cada dia que passa. Mas isso definitivamente não me incomoda, a cabeça de uma mulher na maturidade é algo excepcional, que estou adorando emoldurar com os meus fios prateados.

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1 comentário
  1. Achar o caminho em que nós sentimos bem, também no que diz respeito à aparência, é um grande presente, talvez da sapiência adquirida com o passar dos anos. Parabéns!

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Acooooooordaaaaa menina!

O corpo ideal não existe, mas existe um corpo ideal pra cada indivíduo em cada fase da vida. Questão de saúde pública (estética é um bônus...)