A coluna deste mês estava praticamente escrita. Sendo encerrada. Mas…
Pois é, o que seria de mim sem essa minha essência mutante? E foi ela que me fez reescrever a coluna. Afinal, para falarmos de carreira e de maturidade também podemos estar atentas ao mundo fashion concordam?

Foram noticias, ou melhor, imagens, desse segmento que me impactaram negativamente, e me incomodaram, que motivaram reescrever a coluna.

Modelos maduras

Na metade deste mês começaram a tamborilar no meu feed comentários sobre uma (supostamente) incrível campanha da Fendi. A marca consagraria a volta de Linda Evangelista- a super modelo dos anos 1990 – para comemorar os 25 anos da bolsa ícone da marca, a baguette.

Até aí, eu estava achando o máximo! Uma mulher maravilhosa, que inspirou milhares (e fez outras milhares sonharem) voltando à cena da moda para comemorar um objeto de desejo. Teria apelo, teria correlação, teria lógica. E representaria o retorno de Linda, depois de anos de sofrimento e reclusão. Achei merecido. Achei digno.

Pois é. Teria. Logo depois disso já surgiram as primeiras imagens. E meu incômodo. E aí entram os problemas que muitas marcas ainda precisam avaliar, antes de contratar profissionais maduras pelo buzz. Não é possível vender a ideia de ter este profissional, sem valorizar toda a maturidade que ele tem a oferecer! Este é exatamente seu diferencial. Ao trazer uma modelo de 57 anos, o objetivo é conversar exatamente com o nicho com o qual ela fala, aproveitar a identificação que ela tem. Linda Evangelista não está na campanha para falar com as meninas de 25 anos (pode falar também, mas não deve ser o foco). E foi aí que a marca pecou.

Envelhecer faz parte da vida. E o que nós mulheres mais queremos e precisamos é espaço para vivermos isso naturalmente. Seja para aceitarmos nossas rugas, nosso metabolismo, nossas mudanças hormonais. E nossas necessidades profissionais. Não importa se somos advogadas, executivas, professoras, psicólogas, administradoras… Ou modelos. Se não há espaço para envelhecer na carreira, tudo fica bem mais pesado. E foi peso o que senti na campanha da Fendi.

Só que eu não identifiquei bem o motivo do meu incômodo naquele momento. Foi vendo algumas imagens da filmagem, postadas pela Pati Pontalti, que entendi o que estava me incomodando. A Linda Evangelista da campanha da Fendi não é a Linda Evangelista madura, de 57 anos. Aquela, que vemos ali é uma mulher que foi transformada em uma outra, foi rejuvenescida em uns 20 anos. Os adesivos, que puxaram todo o rosto dela, tiraram a maturidade da modelo. Não há espaço para rugas, para marcas de expressão, para nada que represente idade ali.

E para vocês não acharem que estou exagerando, ou que é um caso isolado. Resolvi trazer mais um caso. Apenas para mostrar o quanto o mundo fashion está longe de aceitar com naturalidade nosso amadurecimento, e o efeito do tempo sobre nossos corpos. A maioria de nós só teve a oportunidade de desmistificar JLo ao assistir o documentário da Netflix (se não assistiu, eu garanto que é possível respirar aliviada e se sentir um pouquinho mais normal depois). JLo é uma mulher maravilhosa, linda, perfeita. E até pouco tempo eu jamais tinha visto uma imagem dela sem retoques. Aquela pele absurdamente lisa e dura, que logicamente sabemos ter Photshop, mas que mesmo assim sobre – e muito – a régua de nosso critério da autoestima?

Pois é. E para vender sua linha cosmética (que inclui nada menos do que um creme para… sim, ela: a bunda!), a cantora e atriz fez uma sessão de fotos que beiraram o assedio de tão perfeitas que ficaram. E nada naturais. Acontece, que Jennifer, como muitas de nós, acredita que não basta ter um corpo absurdamente lindo. Afinal, como vender o creme e a imagem de perfeição se mostrar a realidade, sem o Photoshop?

Seja em uma campanha que comemora os 25 anos de uma bolsa (isso é um monte) e a volta de uma modelo de 57 anos. Seja em uma sessão de fotos para vender cosméticos que levam o próprio nome. Não importa. Seja para o que for, ainda temos que aceitar que o que menos vemos são marcas da idade sendo valorizadas e normalizadas. São profissionais maduras tendo espaço para serem o que são. Talvez você me diga que o mercado é assim. E aí, serei obrigada a responder que nós criamos e consumimos as demandas deste mesmo mercado. E que ainda precisamos, e muito, entender que esse é o mesmo mercado que afasta mulheres do trabalho por considerá-las “muito seniores” aos 45 que verbaliza que mulheres são velhas aos 50, e que rotula toda e qualquer mulher fora do padrão estético de caída ou acabada. E que continua nos colocando em caixinhas muito apertadas e desconfortáveis, das quais precisamos, urgentemente, sair.

Eu, particularmente, não quero deixar um mercado assim para as próximas gerações. Na verdade, eu quero poder vivenciar um mercado mais gentil ainda para mim. E tenho certeza de que campanhas que vistas por milhares de mulheres podem ser um bom começo para mudar esse aspiracional.

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