Trabalhando no site Inconformidades, eu tenho a oportunidade de acompanhar de perto esse time de colunistas maduros que é inspirador em diversas áreas profissionais e também nos emocionantes relatos pessoais. Não é novidade pra mim: tive familiares longevos e sempre observei com admiração e respeito o ciclo inevitável do envelhecimento. Por conta disso, desde cedo já estava atento a necessidade de um estilo de vida saudável pra garantir mobilidade e independência até a idade mais avançada que eu conseguisse chegar. Sou ambicioso nessa questão.

Se a gente tomar como baliza a @ do Inconformidades no Instagram, os 45 anos são a fronteira da maturidade. Com meus 44 recém-completos, sinto um clima de festa de despedida de uma longa era pós-adolescente/jovem adulto. Aproveito como posso, pra não me sentir frustrado depois de ter visto o tempo passar sozinho. Evito olhar pra trás com nostalgia. O “hoje” é o que tem pra hoje. E a gente não se sente velho só por que passou o tempo! Pra gente mesmo, nós somos a mesma pessoa que está aqui dentro desde que a temos memória.

Tenho a noção de que meu metabolismo já não é tão rápido. Somente a ideia de ter que passar um domingo de ressaca já me faz desistir da maior parte dos compromissos sociais noturnos. Estou percebendo também que logo logo terei que usar óculos. Noto essas mudanças, mas a troca ainda está valendo a pena… Acho um charme os fios brancos que apareceram na barba e realmente a experiência é uma armadura poderosa para enfrentar os dilemas da vida. Ou seja, estou tranquilo com essa perspectiva.

Mas eu quero contar sobre esse processo de envelhecimento sendo um homem gay. Muita gente me recomendou “Uncoupled” pela semelhança de perfil, mas achei água-com-açucar demais pra representar esse meu momento de maneira realista. É divertido pra maratonar, mas mostra um relacionamento muito parecido com o de um casal hétero _tão difícil de acontecer quanto de dar certo por muito tempo. O jogo é baixo nesse ambiente dos aplicativos de paquera, que são muito úteis como passatempo mas também capazes de destruir com nossa auto-estima.

Desde os 35, já começaram a me chamar de sugar daddy. Quando fiz 38, um namoradinho de 21 disse me chamou de “coroa gostoso” e jura que foi um elogio. Muitas vezes a conversa começa assim: “Adoro homens mais velhos”. Nem respondo. Entendo a visão, mas não me enxergo e nunca me apresentei dessa forma. Vários perfis já deixam escrito na descrição que preferem homens com menos de 40 anos. Estou ciente também que, sendo branco, magro e musculoso, essa rejeição é menor do que encontraria se fosse uma pessoa preta, gorda ou asiática. Para todos nós, é comum você mandar uma foto e a pessoa te bloquear sem falar nada. Quem não se sente mal quando desligam o telefone na sua cara?

Isso pra descrever as agressões mais suaves. Uma vez eu não consegui responder um garoto por algum motivo, ele ficou bravo e escreveu: “Não precisa me responder. Gente velha é assim mesmo”. Só rindo. Acabei deletando os aplicativos pra me preservar. Deve ser por isso que tem muitos homens maduros que quando passam de certa idade passam a mentir sobre ela nesse tipo de ambiente. (Acho a maior bobagem, por que fica parecendo ainda mais velho do que é. Melhor ser um cinquentão gato se apresentar como trintão tendo cara de cinquentão. Mesmo que você realmente pareça mais novo pra sua idade, são vários os indícios que indicam quantos anos você tem.)

E mesmo os amigos que são os quarentões de capa de caderno, super musculosos e com o abdômen trincado, não estão tão felizes assim. Parecem estar correndo atrás do próprio rabo, tendo que validar a sua juventude e disposição com meninos cada vez mais novos. Isso sem contar as complicações de saúde pelo uso indiscriminado de hormônios. Mesmo com acompanhamento médico, nada justifica mudar seu corpo para encaixar nesse rígido padrão de beleza. Fala-se hoje em dia até em harmonizar o rosto, como se fosse possível editar nossa cara no Photoshop ou aplicar um filtro de Instagram.

Eu não me apego a critérios rigorosos e excludentes de corpo, etnia ou classe social. Sinto muita falta no entanto de ter companhia pra ir ao parque ou andar de bicicleta. Como sou uma pessoa muito matutina, é difícil achar alguém que tope, por que tá todo mundo de ressaca no domingo de manhã. O jeito vai ser encontrar um homem maduro andando de bicicleta no parque mesmo, bem cedinho.

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18 comentários
  1. Que exposição bacana. Olho desta forma e não vejo facilidades. O tal tempo que não existe, mas existe é implacável e no texto, podemos deixa-lo de lado e ler negrito, a dolorida solidão que se aplica neste mundinho atual tao hermético e cheio de etiquetas, tão individualista. Queremos companhia pra dar risadas . Só isso .

  2. Eu já pensava: amo ele e nunca sequer abracei. Penso que as tentativas de levar à tela a vida de um casal gay são pouco reais, pois sempre têm como parâmetro as relações héteros. Casais gays têm suas questões muito próprias e, são tão intensas que dificilmente poderiam ser verdadeiras na tela. É isso não é ficar classificando tipos de relações, mas simplesmente refletindo um pouco do que diz seu texto e do tanto que são preconceituosas as pessoas , independente de gênero, decisão por ser homo, hétero , bi ou simplesmente nenhuma destas opções. E igualmente preconceituosos e cruéis são quando o tema é idade. Amei teu texto. E sim, um ciclista 🚴‍♂️ para dividir pedaladas seria maravilhoso. Desde já torcendo por novos textos e, claro, por um encontro em um pedal domingueiro.

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