Outro dia li um artigo que afirmava ser a “sinceridade absoluta” o melhor caminho para um bom e longevo relacionamento. Clean closet. As tais cartas abertas na mesa espalhadas claramente à vista de todos, a verdade dos fatos (e pensamentos, será?) passados e presentes, crua, em prol da saúde da união. Chato. Revirei os meus olhos. Tenho uma certa preguiça dessas sugestões polyannicas, pretensiosamente românticas.

E essa ecoou em mim um alerta máximo de ataque cafona à liberdade da minha privacidade. Afinal franqueza não é sinônimo de lealdade. Porque uma linha tênue transita entre o íntimo, o esquecimento proposital e a mentira. Jogamos com todos eles, foi assim que aprendemos, para nos proteger das decepções, das surpresas, do que é imutável.  

Agir com total transparência é tática acertada, como colocado pela tal autora, ou equívoco óbvio?

Existirá um ponto de equilíbrio entre esses extremos? Ou deve ser tudo ou nada, doa a quem doer, sobretudo com a chegada da maturidade?

Talvez a cerne do meu julgamento precoce esteja aí. Achar que o detalhe, as pequenas bolas de neve, vontades que calamos a favor do bem-estar do outro, insatisfações que nós mesmas classificamos como bobagens, não teriam a potência de uma avalanche. Meu erro.

As motivações que nos amarram ao silêncio do que acontece em nossa cabeça estão mais enraizadas do que imaginamos. Foi o que me fez esmiuçar o valor e o ônus daquilo que escolhi continuar carregando disfarçadamente, logo eu, que comemorei a chegada dos cinquenta anos me prometendo descartar alguns esqueletos fedidos.

Será que independentemente do contexto que crescemos, somos todas, desde pequenas (apesar da ajuda essencial da terapia), reféns de uma cultura desencorajadora da verdadeira escuta, fazendo com que prefiramos engolir os nossos fantasmas em vez de regurgitá-los? 

A maioria de nós foi educada para deixarmos quietas as nossas perturbações, achar mais fácil resolvê-las sozinhas, porque para eles aguentamos qualquer coisa, infelizmente, ainda. Usamos a nossa força como desculpa por essa conta compulsória, o tempo, como falso aliado nos “não vale a pena agora”, “deixa pra lá”, “fica para depois”, acostumadas a empurrar para o fundo do armário também o valioso junto ao desnecessário. 

Como aceitamos esse pudor que confina confortavelmente o desconfortável? Depois de alguma reflexão passei a olhar com mais camaradagem a opinião controversa daquilo que li. Talvez afinal ela não seja tão ingênua como pensei inicialmente, talvez sua decisão nada tenha a ver com a parceria em si ou sua honestidade. 

Nem sempre podemos devassar toda a nossa vulnerabilidade, um pouco de mistério não faz mal a ninguém, algumas boas lembranças devem continuar só nossas, sim, o mérito do privado é legítimo. Mas a opinião e o desejo, o compartilhamento orgulhoso de partes da nossa história, melhor deixá-los expostos desde o início, pendurados na porta de entrada.                              Já os fardos que nos atrasam e aprisionam, esses, devemos deletar sem a menor cerimônia, apagar qualquer vestígio das suas pegadas.   

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