Quando criança eu era apaixonada por cavalos com longas crinas trançadas, cobrindo parte da cabeça e do pescoço, com suas longas colas. Achava intrigante as tranças que adornavam esses animais tão elegantes. Na minha cabeça, sempre que via cavalos com crinas adornadas, nas feiras e exposições ou em leilões no interior do Rio Grande do Sul, lembrava de filmes nos quais a espécie equina se destaca pela beleza, como na raça andaluz ou aqueles exemplares de povos nômades do deserto, ciganos e os originários -como os de indígenas da América do Norte.

Crina de cavalo

Agora, descubro uma outra novidade sobre a crina de cavalo, o que me faz mais apaixonada ainda por esses animais que acompanham a história da humanidade. Formada por longos e fortes fios que variam de cor de acordo com a pelagem do equino, a crina de cavalo é uma excelente matéria-prima para a produção de joias sustentáveis, gerando renda e emoções e com imenso potencial para uso na chamada arteterapia.

No município de Tapes (RS), as crinas passaram a virar joias nas mãos da talentosa designer e ambientalista Priscila Rebelo. Formada em Gestão Ambiental com pós-graduação em Arteterapia, ela, que sempre teve uma queda pelo artesanato tendo passagem pela cerâmica, agora reúne a paixão pela arte e pelos cavalos com boas doses das teorias e práticas ambientalistas, tendo um negócio sustentável. O resultado são brincos, braceletes, pulseiras, colares e chaveiros tecidos com fios de crina de cavalos .

Para produzir suas joias, Priscila resgatou processos manuais ancestrais, praticados nas fazendas gaúchas e passados de geração para geração ao longo de séculos. São técnicas conhecidas popularmente como guasquearia. A produção dela é inspirada na própria história do bioma do Pampa. A designer mescla os fios tecidos com crina de cavalo a pedras, couros e outros elementos do ramo da joalheria. Todas as joias têm como base produtos que seriam descartados. A crina é uma delas, pois há muito tempo o Brasil deixou de exportar esse produto – que já foi utilizado na produção de escovas de dentes, por exemplo.

Crina de cavalo

A mescla criativa e cheia de significados desenvolvida por Priscila Rebelo tem um papel importantíssimo quando os temas são meio ambiente, amor pelos animais e saúde mental. Ela me contou que a crina de cavalo normalmente não tinha utilização na fazenda da família. Mas isso está no passado: agora, após a tosquia dos cavalos, ela tece os fios e produz pulseiras, colares e demais joias que acabaram ganhando fama. Um outro viés deste trabalho: dar alento ao coração de tutores que perdem seus animais (porque morreram de velhos ou por alguma doença).

Na cultura gaúcha o cavalo, ou pingo, é um ser que faz parte da família. Por isso, alguns proprietários de fazendas têm levado crinas de seus “pingos” que morreram para Priscila transformar em lembranças. “O tutor traz a crina, eu higienizo com sabão que eu mesmo produzo e faço uma peça decorativa ou chaveiros”, conta a ambientalista gaúcha.

Cheia de histórias e simbolismos, a crina é mais do que uma matéria-prima. Para Priscila Rebelo esses fios que adornam a cabeça e o pescoço dos equinos ajudaram ela a mudar o rumo profissional, sem que se afastasse da sua formação e tampouco precisasse sair da cidade onde nasceu. O mais importante: com base na pós-graduação em Arteterapia ela descobriu que tecendo os fios das crinas, uma matéria-prima que parece levar ao artesão a força oriunda dos cavalos, ela poderia vencer a depressão pós-parto. E venceu, com a arteterapia e acompanhamento psicológico.

Hoje, ela comemora o sucesso da marca e, em especial, como a sua proposta de trabalho pode reconectar as pessoas com a natureza e com a cultura. A responsabilidade social e ambiental enraizadas nas peças da ambientalista lhe renderam o convite para participar do showroom da Friends Off The Earth, na Semana da Moda de Milão 2022. Assim, ressignificando uma matéria prima tão genuína como a crina de cavalo, Priscila Rebelo fez um movimento forte em direção à valorização e à preservação do meio ambiente, ampliando o potencial da economia local e abrindo janelas para que outras mulheres possam enxergar novas possibilidades para empreender ou recomeçar a vida profissional.

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11 comentários
  1. Belíssima matéria. Parabéns Priscila, seu design é singular pela elegância e beleza. E , como os cavalos sempre me encantaram, as peças passam a ideia de força e coragem desses animais

  2. Que espetáculo! Se buscarmos pela história de nós pampeanos, orientais algo muito parecido, seguindo a mesma linha de criação já era feita por nossos povos. Maravilhoso trabalho. Parabéns.

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